Michael Kiske abre o jogo sobre o Chameleon: “eles me demitiram” — e o próximo álbum do Helloween já está gravado
Fala, Pumpkins! 🎃 Sentar pra ouvir o Michael Kiske falar do Chameleon é o tipo de coisa que a gente esperou 33 anos. Aconteceu: ele foi ao Talk Is Jericho, o podcast do Chris Jericho — lutador, vocalista do Fozzy e fã declarado da banda —, e passou uma hora destrinchando o disco mais odiado, mais defendido e mais mal-entendido da história do Helloween. Saiu de tudo: a briga judicial que congelou a banda, a capa que só existe porque ninguém mais mandou ideia, a demissão que ele não escolheu, a promessa quebrada com o Ingo — e uma notícia que ninguém esperava sobre o próximo álbum. Separei tudo aqui embaixo. Bora?
🎥 Assista à íntegra:
Chris Jericho, uma camiseta de 1993 e o show no Docks de Hamburgo

A entrevista começa pelo detalhe mais fã-pra-fã possível: Jericho aparece vestindo a camiseta da turnê do Chameleon que ele comprou no próprio Docks, em Hamburgo, em 1993. E tem história: naquele ano ele estava lutando na Alemanha, seis semanas seguidas de shows de luta livre em Hamburgo, hospedado bem em frente à casa de shows. Foi assim que ele viu o Helloween ao vivo na turnê do disco — e virou testemunha ocular do momento em que a Alemanha inteira decidiu odiar o álbum.
“Ninguém entendeu na época — e hoje eu entendo por quê”
Kiske não está mais na defensiva. Ele diz que, na época, era idealista demais: fazia o que achava genial e esperava que todo mundo embarcasse. Hoje inverteu a chave. “Eu entendo. Eu provavelmente seria o mesmo se as bandas que eu curtia mudassem completamente de direção do nada”, admitiu. O interessante é o argumento que ele usa pra defender o disco: nada ali foi planejado pra chocar. Cada álbum, segundo ele, é só o retrato honesto de onde a banda estava naquele momento — e o Helloween de 1993 estava em pedaços.
Antes do Chameleon, uma liminar congelou a banda por dois anos
Essa é a parte que muita gente esquece quando xinga o disco. Entre Keeper of the Seven Keys, Part II e Pink Bubbles Go Ape houve um buraco enorme, e não foi por preguiça. Kiske conta que a banda descobriu que tinha sido completamente passada pra trás nos contratos — “somos músicos, somos idiotas quando o assunto é dinheiro”, resumiu. O novo management levou o caso à Justiça, mas o processo correu na Alemanha, onde não havia jurisprudência parecida; na Inglaterra, diz ele, teriam ganhado de imediato. O resultado foi um acordo — e, no meio do caminho, uma liminar que impediu o Helloween de gravar e até de tocar por cerca de dois anos.
O estrago não foi só financeiro. “Aquilo comeu a alma da banda”, disse Kiske. Foi nesse período parado que Ingo Schwichtenberg desandou de vez.
Kai Hansen fora: “quando ele saiu, o espírito da banda mudou”
Kiske foi generoso e direto sobre a saída de Kai Hansen. Segundo ele, a banda estava num momento perfeito — vendendo, se dando bem, se divertindo. Kai, porém, não estava bem na vida pessoal e projetava aquilo na banda; reclamava de excesso de turnê numa época em que o Helloween mal rodava dois meses por ano (e depois, no Gamma Ray, passou a rodar muito mais — e admitiu isso pra ele).
A analogia que Kiske usa é ótima: banda é como uma conversa boa entre duas pessoas — chega um terceiro e, por melhor que ele seja, a conversa nunca mais é a mesma. “Muitas bandas subestimam o que significa trocar alguém”, disse. Ele faz questão de dizer que Roland Grapow era bom, escrevia boas músicas e trabalhava firme — só não era a mesma química. E crava: Kai não era o líder, Weikath era tão importante quanto. O que se perdeu foi a combinação.
Rod Smallwood, o contrato com a EMI e a liberdade total
Com o empresário do Iron Maiden, Rod Smallwood, cuidando da banda e um contrato robusto com a EMI na mesa, a sensação era de que dava pra fazer o que quisessem. Kiske lembra que Smallwood dizia que o Helloween era “uma injeção de vitamina” pra ele, justamente porque a banda nunca teve um som só. Foi esse sinal verde que destravou o Chameleon.
E ele é honesto sobre o efeito colateral: se o disco tivesse vendido dez milhões, “todo mundo estaria idolatrando ele hoje”. Não vendeu. O apoio evaporou junto com as vendas.
De volta com Tommy Hansen — e com metais e cordas de verdade
Detalhe técnico que todo fã de produção vai amar: Kiske aponta o produtor como a diferença entre Pink Bubbles e Chameleon. O Pink Bubbles, na visão dele, virou praticamente uma regravação das demos, sem ninguém puxando a banda pra cima. Já no Chameleon eles voltaram pro Tommy Hansen, o produtor dos Keepers — o cara que, segundo Kiske, “nunca teve medo de nada” e topava testar qualquer ideia.
O resultado: os metais são metais de verdade (a seção de sopros que gravou com os Rolling Stones), e as cordas são cordas de verdade. Nada de sample.
A capa do Chameleon é do Kiske — porque ninguém mais fez nada
Melhor causo do papo. A banda sentou pra decidir a capa e combinou que cada um levaria uma ideia. Chegou o dia e, segundo Kiske, “ninguém fez nada, só eu”. Ele tinha brincado com uns respingos de cor, achou legal — e virou a capa do disco. O nome “Chameleon” veio depois, da própria ideia de uma banda trocando de cor a cada faixa.
Três discos solo dentro de um só
Aqui está, na fala do próprio, a chave pra entender o álbum. São quatro músicas de cada compositor: quatro do Weikath, quatro do Kiske, quatro do Grapow (Markus Grosskopf não assinou nenhuma). “É de fato um disco solo de cada um, sob o nome Helloween”, define Kiske. Ninguém mexia na música do outro, não havia sala de ensaio virando tudo do avesso como nos Keepers — e como voltou a ser hoje.
Ele até brinca que deveriam ter assumido isso e feito como o KISS em 1978, com quatro discos solo separados. “A gente simplesmente não sabia o que estava fazendo.”
As quatro do Kiske: “When the Sinner”, “In the Night”, “I Believe” e “Longing”
Kiske estava numa fase espiritual intensa — e as músicas saíram disso. “Longing” ele escreveu em dez minutos, porque “já estava ali”. Sobre esse tipo de composição ele cita Bob Dylan, que teria dito que não escreveu certas canções, apenas as pegou no ar.
“I Believe” e “Longing” são, pra ele, as duas favoritas do disco — “essas são realmente eu”. Já “When the Sinner” ele classifica como a mais construída, experimental, montada em cima de uma batida — e se diz surpreso até hoje de ela ter sido escolhida como videoclipe. “In the Night” era brincadeira pura, com um pé no Elvis, e ganhou um charme extra de um piano passado por phaser no refrão, ideia do Tommy Hansen.
A NDR Symphony Orchestra e o arranjo que ele queria “Wagner, não Mozart”

As cordas de “I Believe” e “Longing” foram gravadas com músicos da NDR Symphony Orchestra, de Hamburgo. Kiske conta que pagaram um arranjador e o resultado não soou grande. Ele explicou o que queria — não Mozart, e sim Wagner — e foi o primeiro violinista quem sentou por duas ou três horas, reescreveu todas as notas e entregou o que ele tinha na cabeça.
Tem ainda uma história linda: o cantor alemão Udo Lindenberg passou pelo estúdio, ouviu “I Believe” e sentenciou que aquilo não era uma música, era um estado — um retrato da alma. Kiske guardou o elogio até hoje.
“Eles me demitiram”: a saída não foi escolha dele

Se você cresceu lendo que o Kiske “abandonou” o Helloween, é hora de atualizar. “Eles me demitiram. Não fui eu quem tomou essa decisão”, diz ele. Mas com uma autocrítica rara: ele reconhece que estava plantando bombas. Quando os colegas reclamavam de alguma coisa, ele fazia de propósito ainda mais. Subconscientemente, já sabia que precisava sair.
A prova, pra ele, é a própria reação: quando o empresário ligou avisando que a banda não queria continuar com ele, ficou desapontado por um dia — e no dia seguinte estava em paz.
A briga que Kiske comprou pelo Ingo Schwichtenberg
Essa é a parte mais dura da conversa, e vale ler com respeito. Kiske conta que Ingo estava muito mal — a ponto de parar de tocar no meio das músicas. Numa das últimas apresentações no Japão, o baterista simplesmente parou; Kiske pegou um violão e tocou umas músicas acústicas porque não dava pra seguir. A banda o encaminhou pra tratamento, e ele chegou a ficar limpo por cerca de um ano.
O ponto: segundo Kiske, houve uma promessa formal de que Ingo teria o emprego de volta quando saísse recuperado. A promessa não foi cumprida. Ele estava naquela reunião e afirma ter sido o único a defender que a palavra fosse honrada — todos os outros pensavam diferente. Três semanas depois, ele também foi demitido.
Kiske foi ao enterro. Sobre a morte do amigo, foi seco e triste: disse que não ficou surpreso, porque Ingo já vinha num caminho de autodestruição havia tempo. E fez questão de elogiar o baterista que ele foi: alguém que nunca aprendeu formalmente, batia com uma força que descascava a madeira das baquetas no meio do show, e que tinha uma paixão no toque que ninguém mais tinha.
O “culpado pelo Chameleon” finalmente responde
Durante décadas a narrativa foi essa: o disco estranho é culpa do vocalista pop. Kiske ri e desmonta. “Eu fiz as minhas quatro músicas e todo mundo fez as suas”. Ele diz que, depois do fracasso comercial e da saída dele, venderam a história desse jeito — e que os envolvidos admitem isso hoje em dia. Ele garante que não se abalou: estava fora, não lia revista, não acompanhava nada. O melhor exemplo é “Windmill”, a faixa que os fãs mais associavam a ele: não é dele — e ele gosta justamente porque soa como Elvis.
🚨 A notícia: o próximo álbum do Helloween já está gravado

E aqui está a manchete que ninguém viu chegando. Falando sobre voltar a compor, Kiske soltou naturalmente: o próximo álbum já está pronto. Segundo ele, o material foi todo gravado junto com o disco anterior — faltariam, no máximo, duas músicas. E a banda já perguntou se ele topa escrever alguma delas.
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Kiske pode voltar a compor pro Helloween
Ele não assinou embaixo, mas deixou a porta escancarada. Diz que precisa de silêncio pra escrever e que a agenda de turnês não deixa; se declara preguiçoso com bom humor; e completa: “cedo ou tarde eu vou escrever alguma coisa”. Kiske não compõe pro Helloween há dois álbuns.
De quebra, elogiou muito Andi Deris, chamado por Jericho de “herói não reconhecido” da banda. Kiske concorda e vai além: Deris chegou em 1994 e deu motor de volta na banda, sem tolerar enrolação. “Sem ele, eu não acho que a gente estaria conversando aqui hoje.”
Como Kiske e Deris dividem o microfone hoje
Boa notícia pra quem vai ver a turnê: dividir vocais é justamente o que deixou tudo mais leve. “Quanto mais velho você fica, mais preguiçoso você fica”, brincou. Não precisa mais segurar duas horas de show sozinho, e não se incomoda nem um pouco com isso.
Sobre os arranjos, ele conta que ele e Deris resolvem rápido: “King for a 1000 Years”, música da era Deris que virou dueto na turnê atual, foi acertada em uns 20 minutos num quarto de hotel. Depois de tantos anos, dá pra bater o olho e saber o que é parte de Kiske e o que soa melhor com Deris.
“When the Sinner” quase voltou ao setlist
Presente pra quem ama o disco: Kiske confirmou que “When the Sinner” entrou na lista de candidatas da última turnê europeia. Ele mesmo cortou — é muito difícil de cantar. Mas emendou: “a gente tem que fazer ela um dia”. Jericho mandou o recado que todo fã mandaria: “fala pros caras que eu pedi”.
O veredito do Kiske sobre o Chameleon, 33 anos depois
Não é o disco favorito dele — esse posto é do Keeper of the Seven Keys, Part II, a fase em que a banda de fato acontecia. Mas ele diz ter orgulho do Chameleon, considerando as circunstâncias, e que gosta dele mais do que do Pink Bubbles, que considera incompleto. Uma frase resume o disco inteiro: a dinâmica da banda estava disfuncional, mas a produção foi diversão pura.
Detalhe delicioso: Kiske admite que não ouve o disco há 33 anos. Quando Jericho citou “Revolution Now”, ele não lembrava — só caiu a ficha quando o outro cantou um pedaço.
Verão de festivais e Brasil em setembro
Pra fechar, Kiske comentou a maratona atual: o Helloween nunca fez tantos festivais quanto neste ano, quase sempre como headliner, com o Hellfest na França na sequência. Ele curte festival justamente pela leveza — sem passagem de som, chega e toca. E deu a real sobre os EUA: a turnê americana recente foi provavelmente a maior deles no país, com casas de até 3.000 pessoas em Los Angeles e Nova York.
E o Brasil está no mapa: os shows de 16 de setembro em Porto Alegre e 19 de setembro em São Paulo estão de pé — todos os detalhes do show paulista estão neste guia completo, e a página do evento traz o setlist previsto.
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Fonte: entrevista de Michael Kiske ao podcast Talk Is Jericho, de Chris Jericho (YouTube, 31 de julho de 2026). Assista à íntegra aqui. Trechos traduzidos, resumidos e organizados por nós; os créditos das falas são do próprio Michael Kiske. Imagens: reprodução do vídeo.
— Bruno Monteiro, fã de Helloween desde sempre. Me acompanhe no Instagram @brunoswiper. Nos vemos em Porto Alegre e São Paulo! 🎃🤘