Fiel ao nome, Chameleon (1993) é o disco mais camaleônico da carreira do Helloween — e provavelmente o mais divisivo. Aqui a banda mergulha em rock, sons orquestrais, baladas e experimentações que vão muito além do power metal.

Faixas como “When the Sinner”, “Windmill” e “I Don’t Wanna Cry No More” mostram um Kiske mais cantor pop/rock do que metaleiro. O resultado afastou parte dos fãs na época, mas ganhou releitura carinhosa com os anos.

Foi o fim de uma era: pouco depois, tanto Michael Kiske quanto o baterista Ingo Schwichtenberg deixaram a banda. Um capítulo essencial — e melancólico — da história.

Três discos solo dentro de um só

A chave pra entender o Chameleon veio do próprio Michael Kiske: o álbum tem quatro músicas de cada compositor — quatro de Michael Weikath, quatro de Kiske e quatro de Roland Grapow (Markus Grosskopf não assinou nenhuma). Segundo ele, é “de fato um disco solo de cada um, sob o nome Helloween”: cada um trouxe seu material praticamente pronto, sem a sala de ensaio virando tudo do avesso como acontecia na era dos Keepers. Kiske chega a dizer que deveriam ter assumido isso e lançado quatro discos separados, como o KISS fez em 1978.

O que aconteceu antes: dois anos parados

O disco não nasceu num vácuo. Entre Keeper II e Pink Bubbles Go Ape, a banda descobriu que tinha sido passada pra trás nos contratos e foi parar na Justiça. O processo correu na Alemanha, arrastou-se e terminou em acordo — e no meio do caminho uma liminar impediu o Helloween de gravar e até de tocar por cerca de dois anos. Kiske resume o efeito: aquilo “comeu a alma da banda”. Foi nesse período que a saúde de Ingo Schwichtenberg desandou de vez.

De volta com Tommy Hansen — e com metais e cordas de verdade

Para o Chameleon a banda reencontrou Tommy Hansen, o produtor dos dois Keepers, depois da experiência frustrante do disco anterior. Kiske credita a ele a ousadia do álbum: um produtor que “nunca teve medo de nada” e topava testar qualquer ideia. Daí vêm dois detalhes que definem o som do disco: os metais são reais — gravados pela seção de sopros que também tocou em discos dos Rolling Stones — e as cordas são reais, tocadas por músicos da NDR Symphony Orchestra, de Hamburgo. Nada de sample.

O arranjo de cordas, aliás, quase deu errado: o arranjador contratado entregou algo que não soava grande o bastante. Kiske pediu “Wagner, não Mozart” — e foi o primeiro violinista quem reescreveu todas as notas, em duas ou três horas, até chegar no que ele imaginava.

A capa saiu do Kiske — porque ninguém mais mandou ideia

A banda combinou que cada integrante levaria uma proposta de capa. No dia, segundo Kiske, “ninguém fez nada, só eu”: ele tinha brincado com respingos de cor, achou legal, e aquilo virou a arte do disco. O nome Chameleon veio depois, da própria ideia de uma banda que muda de cor a cada faixa.

O que o próprio Kiske acha do disco hoje

Não é o favorito dele — esse posto é do Keeper of the Seven Keys, Part II. Mas ele diz ter orgulho do Chameleon considerando as circunstâncias, e gosta dele mais do que do Pink Bubbles Go Ape, que considera incompleto. A frase que resume tudo: a dinâmica da banda estava disfuncional, mas a produção foi diversão pura. E ele desmonta de vez a lenda de que o disco é “culpa” dele: fez suas quatro músicas como todo mundo fez as suas — a narrativa foi construída depois do fracasso comercial, e os envolvidos admitem isso hoje.

👉 Todos os detalhes estão em nossa cobertura completa da entrevista de Michael Kiske ao Talk Is Jericho.